Educar para Formar

  Fonte: Ministério Crescer

EDUCAR PARA  FORMAR

Pr. Eber da Cunha Mendes[1]

A educação acontece em toda a vida e com a vida toda. Ela precisa acontecer em todos os lugares e em todo o tempo; através de experiências informais, de práticas de fé, dos modelos, dos contatos, do discipulado e das atividades informais. Vislumbrando um conceito de Educação Cristã, temos de Schipani os seguintes termos:

A Educação Cristã consiste nos esforços deliberados, sistemáticos e contínuo, mediante os quais a comunidade de fé se propõe facilitar o desenvolvimento de estilo de vida cristão , por parte de pessoas e grupos .[2] 

A partir deste conceito percebemos que um dos objetivos do ensino, tanto formal quanto informal é o desenvolvimento de estilos de vida cristã. Uma edificação integral que envolve a pessoa toda, onde todos as áreas da vida estão comprometidas com o processo. “O pensamento, os sentimentos, a vontade; o corpo, alma e espírito; reflexão e ação”. 

Richards enfatiza-nos que a educação cristã deve se preocupar com a vida, com o crescimento da vida eterna dentro da personalidade humana, em direção à semelhança de Deus. É uma edificação que deve acontecer progressivamente no caráter, valores, motivação, atitudes e entendimento do próprio Deus.[3] 

Este é o segredo da fé, a própria vida . Portanto, a educação deve levar a pessoa ao seu mais sublime alvo: “ser igual a Cristo”. Todo ensino formal ou informal deve se concentrar em apoiar o crente a crescer e edificar-se até ser como Cristo. É um processo contínuo , diário de transformação de caráter e de personalidade. A expressão que Paulo usa “Cristo em nós , a esperança da glória” (Colossenses 1.27b-29) é contundente e indica a sua preocupação e seriedade como deve ser o desenvolvimento do caráter cristão. 

Kornfield[4] aponta que existem pelo menos três grandes razões por que crescer no cristão é tão importante:

1-    Somente assim entraremos no propósito eterno de Deus: Ser como Ele e ser unido com Ele;

2-    Somente assim amadurecemos; sem tal crescimento ao melhor ficaremos como crianças espirituais e ao pior poderemos ficar sem segurança de nossa salvação;

3-    Somente assim ganharemos o mundo para Cristo, demonstrando o amor e a formosura dEle.

Ser igual a Cristo é alvo indispensável para todo cristão. Fomos criados à imagem de Deus que foi manchada pela queda. Tanto nós, como toda a criação aguardamos com expectativa a revelação completa de voltar a andar na imagem dEle (Rm 8.18-25).

A educação cristã deve ajudar a criança crescer, desenvolver-se e amadurecer até atingir o alvo. E este processo é para vida toda e envolve a vida toda. Formar vidas é um desafio integral e não pode ficar restrito ao ensino formal. Ensinar outras pessoas a saber o que sabemos é fácil, tornando-se uma simples tarefas de transferência de conhecimentos. Mas o que realmente importa é formar vidas e não apenas informá-las. Formar vidas é desenvolver a vida de forma plena e integral, e isto jamais ensinaremos somente em salas de aula.

Não podemos mais fazer de conta que ensinamos cristãos na fé através das classes e cultos que em essência são impessoais. Precisamos desenvolver um contexto de relacionamentos onde a maior de nossas tarefas educacionais, aprender um estilo de vida, pode ocorrer. Não podemos mais limitar nosso conceito de educação a como estudamos a Escritura na sala de aula, a como o professor comunica, e que métodos são mais apropriados, e a como ajudar alunos nesta sala a expressar aplicações pessoais. [5]

Os paradigmas da Educação Formal precisam ser quebrados. A palestra, o sermão, a memorização de versículos, a informação de eventos e conteúdos bíblicos e as doutrinas bíblicas de caráter abstratos têm o seu lugar e importância, mas não podem ser o alvo principal da educação cristã. É este tipo de ênfase pedagógica que tem recaído apenas sobre o intelecto. Como resultado disto temos assistido o triste quadro de uma quantidade enorme de crentes superficiais de Deus e de valores de Deus. Conseqüentemente, vivendo uma religião estática, estereotipada, fragmentada e intelectualmente sem corpo e sem vida.

E é assim que ensinamos formalmente e informalmente, porque queremos formar e nutrir lares cristãos. Desejamos que as famílias da igreja digam: ‘Eu e a minha casa serviremos ao Senhor’. [6]

Em Marcos 3.14 encontramos uma tremenda constatação. Jesus escolheu doze homens para estarem ´com’ Ele. Jesus não abriu uma classe catequética, não estruturou um currículo teológico, não desenvolveu uma escola dominical, não escreveu uma revista, não fez ementas, enfim, Jesus não fez uso de muitas ferramentas formais de hoje. Mas Jesus optou pelo ensino através da vida. Ele formou vidas que mudaram a história de toda uma história. Jesus fomentou a vida através de uma pedagogia focada na própria vida, envolvendo todas as faculdades do ser humano. O ensino de Jesus trabalhou o intelecto mas sobretudo, se estendeu às raias da volição e afetividade, não deixando de marcar as áreas do comportamento.

Price [7] indica 7 objetivos de Jesus em seus ensinos e relacionamentos pedagógicos com seus discípulos .

1-    O ensino de Jesus convertia os discípulos a Deus

2-    O ensino de Jesus procurou firmar ideais justos nos discípulos

3-    O ensino de Jesus procurou firmar convicções fortes

4-    O ensino de Jesus estabeleceu e estruturou os relacionamentos interpessoais

5-    O ensino de Jesus ajudava os discípulos a resolverem os problemas da vida

6-    O ensino de Jesus priorizou formar caráter maduro em seus discípulos

7-    O ensino de Jesus preparou os discípulos para o serviço cristão.

À vista de todos estes fatos, é maravilhoso notarmos quão largos e vastos eram os objetivos de Jesus. Abrangia a todos e a cada um dos aspectos da natureza humana- os pensamentos, os sentimentos e as vontades . Incluíam todas as relações para o nosso corpo, para com os outros e para com Deus. Cobrem cada fase de nossa atividade pessoal, doméstica, eclesiástica e profissional. Em resumo, Jesus buscou criar o homem perfeito para uma sociedade perfeita. [8]

A socialização é uma ferramenta de construção do indivíduo. As pessoas são construídas e socializadas na fé cristã em situações reais, onde se unem afetos, interesse, motivação , percepção , comportamentos, etc. Na socialização, as pessoas adquirem e internalizam valores, conceitos, comportamentos e vontades. O ensino informal socializa influências conscientes ou inconscientes, formando a identidade, quer seja pela imitação ou pela identificação.     

Como a cultura tem o poder de regular a nossa vida em todos os momentos, desde de quando nascemos até aquele em que morremos, estejamos nós conscientes disto ou não, assim também o papel da educação cristã é facilitar e inserir elementos socializantes em seu currículo oculto, de forma a socializar o caráter dos crentes, sua identidade cristã e responsabilidades do Reino.

Esta socialização é que Groome[9] chama de “juntos tornamo-nos cristãos”. Neste processo as pessoas chegam a ser quem são através da interação com as pessoas do seu meio. De forma que, a auto-imagem, a visão do mundo, sistemas de valor, de fé são influenciadas e moldadas a cada dia.



[1] Formado em Teologia pelo Seminário Presbiteriano de Campinas e pela Universidade Mackenzie/SP. É especialista em Docência do Ensino Superior pela FABAVI/ES, mestrando em História Social das Relações Políticas pela UFES/ES e acadêmico de Direito pela UNESC/ES. Atualmente é pastor da Igreja Evangélica Aliança (Laranjeiras/Serra). Esposo de Denira Araújo Cunha Mendes (Diretora do CRESCER – Centro de Formação para líderes de Crianças) e professor do SECRAI. 

[2] SCHIPANI, Daniel S. El Reino de Dios Y El Ministério Educativo de La Iglesia. Miami: Editorial Caribe,   1983. p.13.

[3] RICHARDS, Lawrence O. Teologia da Educação Crista . São Paulo: Vida Nova, 1989.

[4] KORNIFIELD, David.Crescendo no Caráter Cristão . Série Discipulado Cristão, Vol 6. São Paulo: Sepal,          1995, p.16.

[5] RICHARDS, 1989, p.249.

[6] GEORGE, Sheron K. A Igreja Ensinadora. Patrocíneo: Ceibel, 1990, p.19.

[7] PRICE, J.M. A Pedagogia de Jesus- O Mestre por Excelência. Rio de Janeiro: Juerp, 1990.

[8] Ibdem, p.60.

[9] GROOME, Thomas H. Educação Religiosa Cristã. Compartilhando Nosso Caso e Visão.

  São Paulo: Paulinas, 1985.